quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

A Marca de uma lágrima-Pedro Bandeira (Parte 2/2)


Isabel estava muito fraca por fora,mas tinha a primavera por dentro,com todos os seus pássaros e borboletas azuis.A luta dos médicos tinha sido terrível.Inconsciente,ela nada percebera;somente vivera aquela batalha.
E,por fim,sobrevivera a ela.
Duas batidinhas e entrou a atendente,trazendo mais uma dose anônima de comprimidos.
-Bom dia,querida.Que bom ver a sua carinha animada desse jeito.
-Bom dia!Isso não é animação,é vida!Viver é lindo.Amar é lindo.Ser amada e mais lindo ainda!
-Nossa!Como está a nossa ressuscitadinha!Se todos os doentes fossem alegres como você,este hospital seria uma festa.Você precisa descansar sossegadinha para sair logo daqui.Todas as festas estão esperando por você lá fora.
-Eu dei muito trabalho é?
-Se deu!Quando chegou aqui,disseram que era envenenamento por cianureto.Naturalmente,isso não era possível,porque o cianureto mara em poucos segundos.Tinha sido um calmante,não é?Mas os médicos demoraram a descobrir o que era.
-Puxa,eu só tomei dois comprimidos!
-É,você teve uma forte reação.Ás vezes acontece.Eu trabalho aqui,mas quando estou nervosa só tomo chá de erva cidreira.Nunca confio nesses remédios!
-Vou me lembrar disso da próxima vez...-sorriu Isabel.
-O problema mesmo foi aquela professora louca.Ela injetou o mesmo calmante em você,só que numa dose capaz de matar um cavalo!S não fosse aquele rapaz...
-Cristiano...
-É esse o nome dele?Você tem sorte de ser tão amada por um garoto como aquele.Ele arrebentou um frasco de sangue na cabeça da tal professora Virgínia,bem a tempo de...
Era a última recordação de Isabel:O sangue esguichando na cabeça da vice-diretora,escorrendo por todos os lados,empapando sua camisola.
-Deu até na televisão!Agora,aquela mulher maluca está toda costurada lá na enfermaria da prisão.Se não fosse o seu garoto...
-Cristiano...ele me salvou a vida!
-E salvou por duas vezes!Foi ele quem encontrou você em cada,caída no sofá,e chamou a ambulância.Depois,ficou o tempo todo por aqui,pressionando os médicos,perguntando por você a toda hora,chorando...
-Chorando!
-Só arredou pé do hospital quando soube que você estava fora de perigo.Acho que foi em casa se arrumar para que você o veja bem bonitinho...
-Cristiano...chorando por mim...
A atendente ajeitou os travesseiros atrás de Isabel e preparou-se para sair.
-Você é uma garota de sorte,mas vai ter um probleminha para resolver.
-Um probleminha?Qual?
-Há outro garoto,não é?Apareceu aqui algumas vezes,também desesperado,dizendo a todo mundo que ama você,que não pode viver sem você.
Uma sombra passou pelos olhos de Isabel.
-Esse é Fernando.Um rapaz maravilhoso.O melhor amigo que uma garota como eu poderia ter.Ah,se não fosse Cristiano...
-Então você já escolheu,é?Um dos dois vai sofrer.
A alegria da sobrevivente diminuiu um pouco.Por nada deste mundo gostaria que Fernando sofresse.Mas ela estava amarrada para sempre pelo beijo apaixonado no jardim,pelo beijo da vida no sofá,pelo roçar da correntinha...
-Ah Fernando,você vai ter de me compreender...

-Ah Fernando,que rosas lindas!Obrigada,você é mesmo um amor!
Isabel teria preferido que a primeira visita não fosse a de Fernando.Mas agora o rapaz estava ali,cheio de rosas e esperança,e ela iria fazê-lo sofrer.Rosana também sofreria,mas o que fazer?
"É melhor um fim tragico do que uma tragédia sem fim.",pensou ela pela segunda vez.
-Senhorita Ilusão...a professora Virgínia enganou a todos nós,não foi?
Isabel decidiu aproveitar a deixa e dizer o que tinha de ser dito,do modo mais rápido possível.
-Sabe,Fernando?Você é um grande amigo e eu quero que saiba de uma coisa maravilhosa...
-Não sei se quero saber dessa coisa maravilhosa,Isabel.
-Mas eu quero que você saiba,Fernando.Estou apaixonada por Cristiano e agora sei que ele também me ama...
-Eu sou a pessoa menos indicada para você dizer que ama outro,Isabel.Porque você sabe que eu te amo...
-Oh,Fernando,compreenda.
O rapaz ainda olhava para fora.
-Eu sei,Isabel.Você falou o nome dele o tempo todo,durante o seu delírio.Em sua casa e aqui,no hospital.Mas,se você quer dizer que ama Cristiano,diga a ele mesmo.Ele vem aí,acabou de atravessar o jardim.
-Fernando,eu...
-Não se preocupe comigo,minha queira.Acho que chegou a hora de eu parar de insistir.Fique boa logo e seja muito feliz,meu amor...
Caminhou até a porta e voltou-se para Isabel,sorrindo,como se as palavras da menina não o tivessem ferido como punhais.
Ali,á sua frente,estava o garoto da sua vida.O garoto lindo como um deus,o garoto que elahavia ajudado a conquistar para sua melhor amiga.
Cristiano ajoelhou-se no chão,ao lado da cama,e tomou a mão de Isabel.
-Meu amor,minha prima querida!Você sobreviveu para mim!
-Cristiano!
Por que ela se sentia assim?Por que não conseguia esquecer a expressão de derrota no rosto de Fernando?Remorso,talvez.Ela jamais teria querido magoar aquele amigo...mas...o que fazer?
-Isabel,você não me compreende...
-É verdade, Cristiano,eu custei a compreender.Compreender que sou uma artista.Uma artista que criou os dois lados de uma paixão que só existia na minha cabeça.Mas o amor de você e Rosana é real.Vocês se amam apesar e não por causa das minhas palavras.Se não sabem se amar sem elas,amem-se calados!
-O que você está dizendo Isabel?
-Deixe-me,Cristiano.Vá procurar Rosana.Eu sei que há uma grande verdade no meu amor por você.Uma verdade que não fui eu que escrevi.Uma verdade que foi escrita sem palavras,com um beijo,em um jardim de sonhos.Sei que jamais esquecerei aquele beijo,mas tenho de tentar.Devo minha vida a você.Duas vezes.Devo minha paixão a você.Para sempre.Mas eu não aguento mais.Tenho de esquecer aquele beijo.Tenho de esquecer você,ou passar a vida tentando.
Cristiano não entendia nada.Levantou-se num repente e segurou a menina pelos ombros.
-Esqueça tudo isso,Isabel.Esqueça as cartas,esqueça tudo!O que importa é que nós dois nos amamos.Vamos começar tudo de novo,meu amor!
Debruçou-se sobre ela,com os lábios ávidos por beijá-la.Isabel desviou o rosto,e com as mãos,tentou afastar o rapaz.
-Não ,Cristiano,por favor...eu não quero mais sofrer.
As mãos de Isabel espalmaram-se no peito de Cristiano.A camisa afastou-se,revelando o peito nu.
-Cristiano!A correntinha!Onde está a correntinha?
-Que correntinha,meu amor?Eu não uso correntinha...
Isabel livrou-se do abraço,e a custo,levantou-se da cama.
-Você...voce^não usa correntinha!
-Por que deveria usar?De que está falando Isabel?Eu não entendo...
-Pois agora eu entendo!
-Como fui cega!Só enxerguei a fábula que eu mesma estava criando!Não preciso esquecer aquele beijo,Cristiano.Eu disse que ninguém haveira de me tirar aquele beijo,e isso ninguém vai me tirar.Ele é meu!
Cambaleou tonta até a janela.Uma chuva miúda enregelava a paisagem.E ela viu no jardim do hospital quem queria ver.
-Me espere meu amor...
Arrastou-se como bêbada para a porta do quarto.
-Não,Isabel!Você está muito fraca!Não pode sair da cama!
-Volte para Rosana,Cristiano.Ela o ama e você a ama.Agora tenho de consertar todos os enganos que eu mesma criei.Tenho de encontrar a pessoa que me amou como eu sou,sem fábulas,sem versos,sem cartas,com todos os meus problemas e as minhas loucuras.Adeus,primo querido.Volte para Rosana!
Enfraquecida,seminua,abriu a porta e correu pelos corredores do hospital.Suas pernas mal obedeciam e o frio do pavimento penetrava-lhe as solas dos pés.
-Meu amor,espere por mim!
Livrou-se de um atendente que tentou detê-la,e chegou vermelha,ardendo em febre,á porta do hospital.
No meio do Jardim,um rapaz levantou o olhar para ela.
-Isabel!
-Fernando!
Tropeçando,escorregando,Isabel correu pelas alamedas molhadas em direção dos braços que a aguardavam.
A chuva colava sua camisolinha ao corpo quando Fernando a abraçou.
-Fernando,meu querido!Eu preciso dizer...
-Quetinha,meu amor!Você já falou demais...
E os lábios de Fernando procuraram a boquinha trêmula de Isabel,calando,com um beijo apaixonado,tudo aquilo que não precisava mais ser dito...
A chuva apertou,encharcando os dois,como se quisesse dissolvê-los em só corpo,num abraço eterno...

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