quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

A Marca de uma lágrima-Pedro Bandeira (Parte 1/2)


Simplesmente amooooo...

Interrompendo o filme,na tela iluminada surgiu uma silhueta que não fazia parte do enredo.A silhueta caminhou até ela.

-Oi.É uma festa particular?Por que não me convida?

A luz do salão iluminou o rosto do rapaz á sua frente,que a olhava nos olhos,sorrindo.

Isabel desviou o olhar e por um momento odiou aquele rapaz que vinha distraí-la em sua sentinela.
-Eu sou o Fernando.E você?
-Eu?Sou a ilusão...
-É um nome estranho para quem está sozinha.A ilusão nunca está sozinha.
-Pode me chamar de cretina,então.É o meu apelido.
-Cretino é aquele que crê em tudo o que ouve.Você acredita em tudo?
-Eu?Não.Só naquilo que me ilude.
-Acreditaria se eu dissesse que é a garota mais linda da festa?
-Não.Eu diria que você está me gozando.E o esbofetearia.
-Seria uma nova experiência ser esbofeteado por uma ilusão.
-Ou por uma cretina...
-Você tem resposta pra tudo,não é?
-Não.Só pra quem tem pergunta pra tudo.
Isabel entornou rapidamente o resto do copo e o líquido escorreu quente,queimando tudo por onde passava.
-Quer outro refrigerante?Vou buscar.

Senhorita Ilusão!Que ótimo reencontrar você!
O sinal para o recreio tinha acabado de soar,e Isabel correra em direção ao laboratório.Mas,no meio do corredor,a figura de um rapaz a deteve,sorrindo e olhando-a bem de frente,bem nos olhos.
-Hein?
-Não se lembra de mim,Senhorita Ilusão?A festa de sábado,o aniversário de Cristiano...Sou o Fernando,lembra?
-Oi Fernando.Desculpe,mas...
-Quer dizer que você estuda aqui?Que sorte a minha!Acabo de me transferir para o terceiro ano e talvez...
-Desculpe,Fernando.Estou com uma pressa danada.Depois a gente conversa tá?
-É...dizem que a ilusão é como uma ave que vem e vai.Só que eu não gostaria de perder essa ilusão,entende?
-Tchau,Fernando.

-Alô...
-Senhorita Ilusão?
-Ah,é você,Fernando...
-Puxa,que voz mais desanimada!Acho que eu merecia um pouco mais de entusiasmo por ter ficado a manhã toda procurando minha ilusão.Onde você se escondeu?
-Acho qu você não tem nada com isso,Fernando.
-Isso é o que se pode chamar de um "fora".Só que eu sou surdo á palavra"não".Eu insisto até ouvir o "sim" que quero ouvir.
-Olhe,eu perdoo a sua insistência se...
-Não quero que você perdoe,quero que a aceite!
-Desculpe,Fernando,é que hoje eu não...
-Como fazer para dobrar você,Isabel?
-Você já sabe o meu nome?
-Sei muito mais.Sei até que está triste e também que está com a tristeza errada.(sua melhor amiga apaixonada pelo seu primo Cristiano,a quem a protagonista devota sublime paixão.)
-Como sabe disso?
-Certas coisas não se precisa saber.Basta sentir.
-Pois você sente errado.E não tem nada que se meter na minha vida.Me deixe,tá legal?Me esqueça!
-Eu nunca vou esquecer daquela noite,naquele jardim...
-Tchau,Fernando.
O fone já estava longe do ouvido de Isabel,pronto para ser secamente desligado,e a menina não pôde ouvir a última frase de Fernando.
-Eu quero você,menina malcriada!

"...Símbolos?Não quero símbolos!Queria que o namorado voltasse para a costureira!"

A pouca luz que ilumina a página diminuiu,coberta por alguém ás suas costas.

-Renovando as ilusões,Senhorita Ilusão?
Fernando!Sempre Fernando,em todas as horas em que Isabel queria ficar só.
-Fernando Pessoa...-leu o rapaz por cima dos ombros de Isabel.-Gosta de Fernando Pessoa?E da pessoa do Fernando,você gosta?
Isabel suspirou.
-Poderia gostar mais,se a pessoa do Fernando fosse menos insistente e soubesse escolher melhor a hora de aparecer...
-Acho que quem escolheu foi você.Eu trabalho á tarde nesta livraria.
-Oh,é mesmo?Eu não sabia...
-Tem muita coisa que você não sabe,Isabel.
-E que certamente você gostaria de me ensinar,não é?
-Você não encontraria professor mais dedicado.
-Por quê,Fernando?O que você quer?
-Você Isabel.
-O que você vê em mim?Uma gorducha,de óculos,feiosa e sem graça,que ninguém tira para dançar?
-Não.Isso é o que você vê.O que eu vejo é uma garota fascinante,que se esconde nos jardins para não correr o risco de alguém tirá-la para dançar...
-Que é que você entende,Fernando?Que é que você sabe?
-Sei,por exemplo,que Fernando e Isabel foram dois reis espanhóis que se amaram muito e até ajudaram a descobrir a América...
-Pois saiba que eu não sou espanhola,não toco castanhola e não quero descobrir coisa nenhuma.De mim,da verdadeira Isabel,você não sabe nada!
-Aquilo que eu não sei não posso saber que eu não sei.Por que você não me conta?Vamos sair um pouco?Que tal uma volta?
-Mas você não está trabalhando?
-Tenho direito a uma folga.Depois,minha mãe é a dona da livraria.

Tinha sido bom encontrar o chatinho do Fernando.O rapaz ajudou-a a passar aquelas duas horas.Poderia vir a ser um bom amigo,desde que parasse de chamá-la de "Senhorita Ilusão",é claro.

(após a notícia de que Cristiano,seu "grande amor",havia pedido sua melhor amiga Rosana,em casamento,Isabel desfaleceu.)

Todos os papéis que importavam,porém,já tinham sido escritos.E todos por Isabel.Foram eles que geraram e alimentavam o amor daqueles dois.E destruíam a esperança da autora.Em muitos deles,ficara apenas a marca de uma lágrima.Pingada na solidão de seu desespero.

-Senhorita Ilusão...Isabel!Não vai subir para a classe?
Fernando!Sempre Fernando,sempre presente,nunca Cristiano!
-Já vou,Fernando.É só um instante.Suba você.
-Eu espero.
-Não,por favor.Vá.Eu preciso deste instante.Faça isso por mim.
Fernando aproximou-se suavemente.Isabel sentiu o calor do rapaz e o perfume suave da colônia masculina.Fernando tomou-lhe a pontinha do queixo e ergueu o rosto de Isabel em direção ao seu...
-Não,Fernando,por favor...
Com a palma da mão,procurou afastar o rapaz.
-Eu preciso ficar só,só um momento...
-Isabel...
Os dedos da menina enroscaram-se em alguma coisa que saía da camisa de Fernando,quando ela se esquivou dos lábios que procuravam os seus.Com o arranque,algo veio partido,pendurado em sua mão.
"Uma correntinha.Estão na moda as correntinhas.",pensou Isabel.
A correntinha caiu no chão.

O cavaleiro,vitorioso,cravou a espada na terra.Olhou para a princesa e,ainda com o elmo abaixado,ajoelhou-se no chão,oferecendo seus préstimos.
Quem seria ele?Pendendo sobre a armadura,uma correntinha balançava.

A correntinha!
-Calma Isabel,eu estou aqui.O que houve?
Outros braços a enlaçavam,desta vez sobre a árvore da praça,aquecendo-a do frio da manhã.Ela havia sonhado tudo de novo,acordada,como se tivesse enlouquecido.
-Calma,meu amor...Me abrace.Está tudo bem...
-Oh Fernando...Você...
Soluçou baixinho,como uma criança sobre aquele ombro amigo,que a toda hora se fazia presente.Os dois deixaram passar todo o tempo de que Isabel precisava.E ela precisou de bastante tempo.
-Desculpe,Fernando.Eu ando nervosa,meio louca,falando sozinha,eu...
-Está bem.Você não está sozinha agora.
-Obrigada Fernando.Foi bom você ter aparecido.
-É a primeira vez que você diz isso.
-Como me encontrou aqui?
-Por acaso,estava passando...
-Estava passando nada!Você me seguiu.
-É claro que sim!
-Ah Fernando!Você não toma jeito...

-Eu penso que você é a garota mais adorável que eu conheço.Não me importa se quer bancar a adulta ou a detetive.Para mim,você é uma criança assustada.Uma criança que eu quero proteger e am...
O rapaz enlaçou carinhosamente a menina e esperou que aquele coraçãozinho recuperasse os batimentos normais.

A mente de Isabel desligou-se do mundo.(Logo após receber uma dose cavalar de calmante pela louca professora Virgínia,que matou a diretora Albertina com cianureto e claro,queria matar também a testemunha ocular...não fosse a coragem que só quem ama de verdade possui...)

-Calma rapaz,estamos fazendo o possível!
-Faça o impossível Doutor!Salve Isabel!
-Me disseram que essa menina é um gênio...
-Não me importa o gênio,Doutor,Eu quero essa menina!Eu quero Isabel viva!

-Doutor,esse rapaz se recusa a sair do hospital.Disse que vai ficar aqui a noite toda,na sala de espera,acordado...
-Deixe-o ficar enfermeira,deixe-o ficar...
-Mas o regulamento...
-Então faça de conta que não viu.Eu também já fui jovem,enfermeira.Eu também já me apaixonei,como esse rapaz.Sei o que ele está sentindo...

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