quinta-feira, 3 de abril de 2014

Confissão (Manuel Bandeira)

CONFISSÃO Se não a vejo e o espírito a afigura, Cresce este meu desejo de hora em hora... Cuido dizer-lhe o amor que me tortura, O amor que a exalta e a pede e a chama e a implora. Cuido contar-lhe o mal, pedir-lhe a cura... Abrir-lhe o incerto coração que chora, Mostrar-lhe o fundo intacto de ternura, Agora embravecida e mansa agora... E é num arroubo em que a alma desfalece De sonhá-la prendada e casta e clara, Que eu, em minha miséria, absorto a aguardo... Mas ela chega, e toda me parece Tão acima de mim...tão linda e rara... Que hesito, balbucio e me acobardo.

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